Entenda A Necessidade Da Natureza
Nós existimos em um estado especial, em um mundo único, no qual não compreendemos o que acontece conosco. Não sabemos o que acontecerá conosco agora ou daqui a um minuto; não percebemos nenhum sistema claro de recompensa ou punição, nem de causa e efeito entre nossas ações, pensamentos ou atos físicos. Vivemos em relativa escuridão, no vazio.
Algo acontece, mas dificilmente sabemos como e porquê. Vemos apenas as consequências imediatas de nossas ações mecânicas no momento presente, e não enxergamos além desse nível.
Não conhecemos as consequências de nossos desejos, de pensamentos bons ou maus. Os pensamentos e desejos dos outros me afetam? Eu os sinto ou não? Não sei, é incerto. Em essência, nos encontramos existindo em um espaço de escuridão quase total. E essa escuridão sequer nos incomoda; nos acostumamos a ela.
Uma criança pequena, como vemos, não entende o que está fazendo ou o que está acontecendo com ela. Ela corre, brinca e puxa coisas; uma criança explora o mundo através de um nível mínimo de contato com ele.
E nós? Fundamentalmente, também temos um nível mínimo de contato com o mundo. Mesmo no nível físico, não sabemos ao certo se interagimos com o mundo corretamente ou não. Somente em nossa época, neste século, estamos começando a perceber como nossa interação com o mundo impacta o meio ambiente, a ecologia, o clima, etc. Mas como nossos pensamentos afetam o mundo, a medida mais forte de impacto, ainda não sabemos.
Em princípio, se traçarmos a hierarquia da nossa interação física com o mundo a partir do nível mais baixo, o nível humano, que sucede os níveis inanimado, vegetativo e animado, é, em essência, o nível dos pensamentos, das intenções e da atitude interior de uma pessoa em relação à sociedade ou ao mundo em que existe.
Então fica completamente obscuro onde se encontram a recompensa, a punição e as consequências de nossas ações boas ou más.
Em geral, isso é um problema. Somos como crianças correndo pela sala, fazendo algo sem entender o significado ou a reação exata. Dizemos à criança: “Não faça isso!”, mas ela não entende o porquê. Nós sabemos, mas ela não. E quem pode nos dizer o que é permitido ou não também não está claro.
Só agora começamos a perceber que existe uma única força superior (chame-a de natureza ou Criador) que governa tudo porque está integralmente conectada a nós, e devemos levá-la em consideração. Vemos que tudo na natureza segue leis absolutas que agem sobre nós sem nos consultar. E aqui surge um sistema de relações muito complexo.
Como podemos nos comportar em relação à natureza que nos cerca, ao mundo superior, à força superior, se existimos dentro dele, mas permanecemos completamente alheios à sua presença? Consequentemente, em nossa insensatez, nos comportamos inadvertidamente como crianças pequenas; imaginamos que somos livres para agir como bem entendermos, apenas para nos vermos atingidos por todos os lados por uma saraivada de dolorosas consequências.
No entanto, não damos a essas consequências a atenção que merecem, não as reconhecemos como resultado de nossas próprias falhas, nem percebemos a ligação causal direta entre nossas ações e a resposta da natureza. Simplesmente não entendemos a fórmula fundamental que rege a interação adequada entre nós e o mundo natural.
Se fôssemos capazes de perceber e compreender isso, nosso egoísmo, nosso desejo inato por uma existência confortável, nos guiaria infalivelmente na direção certa. Mas, como esse sistema de governança permanece oculto para nós, continuamos a nos comportar como crianças pequenas; tudo o que nos interessa no momento, agarramos imediatamente para experimentar, sem nos atentarmos às consequências. E, se há consequências, não as relacionamos à causa. Aqui reside nossa ignorância sobre governança e todos os problemas de nossa vida.
É claro que esta é uma existência miserável, mas não há nada a fazer. A governança superior e a clara conexão entre nossas ações e consequências nos são ocultadas para nos elevar a um nível em que nós mesmos realizaremos as ações corretas não por coerção, mas porque desejaremos estar em conexão direta com o Criador e desejaremos ser bons e bondosos.
É precisamente isso que a natureza exige de nós, seres irracionais que somos, de percebermos a realidade em que existimos e de agirmos de acordo com essa consciência.
Da Lição de Cabalá em Russo, 17/03/19