Palestras Sobre Os Degraus Da Escada, Parte 154
Palestras sobre os Degraus da Escada, Parte 154
Como podemos nos esforçar se sabemos que não podemos alcançar o Criador?
Na Cabalá, aprendemos que somos inteiramente desejo de receber, que queremos apenas desfrutar. Pela nossa própria estrutura, já sabemos desde o princípio o que queremos desfrutar. Então, como podemos mudar nossa natureza? Não podemos mudá-la. Como podemos desejar algo que não existe em nós? Não podemos.
Conclui-se, portanto, que não temos poder para mudar nada. Podemos apenas discernir o que queremos, sentimos e almejamos. Essa é a vantagem do ser humano sobre o animal: podemos examinar nossos desejos, mas não podemos substituí-los, mudá-los ou sequer desejar mudá-los.
Percebemos o quanto de esforço e tempo são necessários para mudar hábitos neste mundo. Por exemplo, uma pessoa com diabetes que precisa parar de consumir açúcar lê bastante sobre o assunto, ouve conselhos de outras pessoas e assiste a vídeos sobre os graves efeitos do diabetes até se convencer a parar de consumir açúcar e criar um sistema para lidar com o desejo por doces.
Isso demonstra o que as pessoas fazem, para que toda uma indústria foi construída e quanta persuasão as pessoas precisam suportar apenas para enxergar o mal no plano físico e entender que algo lhes faz mal. Em outras palavras, devemos refrear nosso desejo e equilibrá-lo com intelecto e razão. O intelecto nos diz que o açúcar faz mal, mas o desejo nos indica que a doçura faz bem.
Às vezes, uma vida inteira se passa antes que melhoremos algo em nós mesmos. Isso se refere à melhoria no nível físico, onde é evidente que é para o nosso próprio bem, ou seja, onde estamos diante de exemplos e onde vemos os resultados negativos e positivos com nossos próprios olhos, mas ainda assim não conseguimos mudar. Isso demonstra a força do desejo, pois ele faz parte da nossa natureza. Apesar dos inúmeros sistemas intelectuais que construímos e de todo o nosso autoconvencimento, é difícil resistir ao desejo.
Só nos abstemos depois de vermos, diante de nossos próprios olhos, a amargura e o castigo lado a lado com o desejo e a doçura. Em outras palavras, só nos abstemos quando o intelecto e o desejo se confrontam. Mesmo assim, calculamos de acordo com a medida do sofrimento, assim como estamos dispostos a sofrer trabalhando o dia todo para ter algo para comer à noite. Contudo, nesse caso, o cálculo se revela.
Portanto, Baal HaSulam afirma na Introdução ao Estudo das Dez Sefirot que, se o Criador fosse revelado, e todo o Seu sistema e a Sua atitude para conosco fossem revelados, o mundo inteiro seria completamente justo. Todos veriam o que traz o bem e o mal. Haveria a revelação da recompensa e da punição, e não teríamos escolha senão escolher o bem. Mesmo que quiséssemos seguir nossos desejos, veríamos o golpe que receberíamos e que não valeria a pena.
Mesmo em nosso estado atual, reprimimos muitos impulsos para não sofrer, sentir vergonha, sermos presos ou espancados. Essa tendência existe em todos.
Mas como nos convencemos de que a espiritualidade é uma necessidade? Lemos em livros que há recompensa para certas ações, para vários usos do desejo, e punição para o oposto, mas como não vemos imediatamente a recompensa e a punição, como elas não são reveladas, isso não nos ajuda a nos convencer.
Como podemos construir um sistema auxiliar através do qual nos relacionemos com elas como se tivessem sido reveladas?
Rabash diz que devemos aprender com nossos amigos no caminho espiritual, ouvir suas palavras, observar suas ações, aprender como eles anseiam e, assim, receber força para lidar com os desejos naturais e apresentar a esses amigos uma imagem de esforço e trabalho corretos, bem como de anseio pelo resultado correto.
Não podemos decidir antecipadamente que nossa força se esgotou e que devemos clamar ao Criador. Mesmo diante de uma punição visível, precisamos persuadir o desejo a se desapegar para não o ativar. Certamente, quando dizemos que todos os nossos desejos são inúteis, que tudo o que vemos neste mundo não tem importância, incluindo a espiritualidade que almejamos alcançar por meio de desejos que operam nessa direção, somente a partir disso não podemos chegar a uma súplica ao Criador.
Precisamos abandonar todos esses desejos, deixar de lado sua natureza e então nos voltar para o Criador, precisamente quando não temos impulso para fazê-lo, nenhuma conexão com Ele, visto que Ele está oculto.
Podemos superar o véu da ocultação e criar um canal alternativo para sentir o Criador e, então, nos voltarmos a Ele? Podemos renunciar a todas as ações que levam à decepção, o que, por sua vez, nos levará a nos voltarmos ao Criador? Isso pode levar muitos anos. É possível nos voltarmos ao Criador mesmo antes de nos decepcionarmos ao lidar com nossos desejos?
De onde podemos extrair a decepção que nos aguarda daqui a dez anos e trazê-la para o presente? É possível acelerar esse processo?
Podemos tentar conviver com pessoas deprimidas ou pedir à sociedade que nos forneça sentimentos de insignificância da vida, a inutilidade do nosso trabalho e de nós mesmos, e a nossa falta de forças para qualquer coisa. Talvez as pessoas nos ofereçam isso de bom grado, mas será que isso nos impressionará o suficiente para pedirmos ajuda ao Criador?
Aparentemente não, porque recorrer ao Criador transcende a natureza. Recorremos ao Criador para mudar nossa natureza, em vez de simplesmente clamar: “Ajuda-me a prosperar!” ou colocar um bilhete no Muro das Lamentações. É um pedido de inversão interior, de transformação da própria natureza.
Portanto, precisamos agir de acordo com a nossa natureza e, repetidamente, perceber como a nossa própria natureza nos impede de alcançar a verdade, para que vejamos que não podemos atingi-la, e somente então poderemos pedir que a nossa natureza seja transformada.
Ainda assim, precisamos acelerar o tempo. Precisamos encurtar a duração do processo. O que significa “encurtar a duração”? Significa realizar todas as ações e desejos possíveis um após o outro e, em seguida, rapidamente nos decepcionarmos. Ou seja, quanto mais vigorosamente explorarmos todas as possibilidades disponíveis em nossa natureza egoísta, tentando cada ação, desejo e abordagem que acreditamos que possa nos levar ao objetivo, mais rapidamente perceberemos o fracasso.
Há pessoas que estudam devagar, agem com preguiça e dizem para si mesmas: “Tudo bem, mais dez ou quinze anos”. Há também aquelas que se dedicam completamente e, depois de apenas alguns meses, sentem inúmeras quedas e decepções, mas já compreendem algo. As outras, ainda felizes e bem-intencionadas, esperarão muito tempo antes de entender.
Na verdade, devemos nos alegrar até mesmo nos momentos de decepção. Decepção por quê? Por nossas próprias forças, ou seja, por percebermos que não podemos alcançar o objetivo apenas com nossa própria energia. O importante não é se alegrar com outras coisas, a menos que estejamos conectados ao objetivo.
Somente as decepções nos levam de uma constatação a outra até que determinemos nossa incapacidade. Somente por meio dessa experiência é que mais e mais fatos se acumulam, comprovando nossa impotência, até que um verdadeiro anseio cresça dentro de nós para nos voltarmos ao Criador.
Não há escolha. Quanto mais nos decepcionamos, mais nos esforçamos para alcançar o objetivo. O objetivo torna-se cada vez mais importante à medida que nos decepcionamos com a nossa própria força. No fim, desejamos o objetivo com tanta intensidade e constatamos que não podemos alcançá-lo; isso se chama girar o dia todo em torno desse objetivo “até que ele não nos deixe dormir”. É como alguém com um desejo enorme que não consegue satisfazer, até que clama ao Criador.
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