“Aquele que come o que não é seu tem medo de olhar para o seu rosto”. Isso significa que qualquer um que se alimenta do trabalho dos outros tem medo (vergonha) de olhar para sua própria forma, pois sua forma é desumana (Baal HaSulam, “O Amor de Deus e o Amor do Homem”).
Dentro de nós reside o atributo da vergonha; ela é profunda e penetrante. Temos um medo desesperado de expô-la, porque a vergonha anula o nosso eu, nos transforma em nada.
Se eu experimento a vergonha atingindo sua plenitude, anulo-me como resultado. Isso provém da raiz mais elevada: da minha oposição ao Criador, do desejo de receber que se opõe à luz.
Ao sentir o quanto a luz é oposta em qualidades e intensidade, o desejo vivencia essa diferença como vergonha.
Então, ele está pronto para se anular, para deixar de existir, simplesmente para não sentir mais esse abismo. É isso que o compele a realizar uma restrição, isto é, a se anular. Para me livrar da vergonha, estou disposto a retornar à não existência, ao nada de onde vim.
Às vezes, uma pequena partícula desse sentimento espiritual desperta dentro de nós.
Então, por que a vergonha é necessária? Ela nos ajuda a alcançar a adesão, a semelhança completa com o Criador. A vergonha surge da oposição revelada entre nós e Ele e ajuda a preencher essa lacuna.
Isto significa que se eu quiser progredir, devo intensificar constantemente o sentimento de vergonha, isto é, o abismo entre mim e o Criador, para que eu possa avançar sem errar.
Digamos que hoje eu esteja envergonhado como se tivesse roubado um dólar Dele. Amanhã serão dois dólares, depois de amanhã, três. Ao isolar e enfatizar minha oposição, eu a corrijo e avanço.
Assim, a vergonha é a sensação mais aguda que literalmente me “deixa em curto-circuito” com o Criador. Se eu realmente corrigir a vergonha por meio da doação e me elevar constantemente acima dela, alcançarei a adesão. É por isso que nosso estado final é definido precisamente como adesão.
A vergonha é uma criação separada. Dois desejos por si só — receber e doar — não bastam, porque então a realização direta bastaria: um dá, o outro recebe, sem problemas.
Mas o Criador deseja que o ser criado se assemelhe a Ele. Por isso, Ele incorporou nele esse sentimento único chamado vergonha, que constantemente nos incita e nos agita.
Quando você joga um osso para um cachorro, ele o rói alegremente, sem nenhuma vergonha. Mas um ser humano, a menos que seja reduzido a um estado bestial, é constantemente movido pela vergonha.
O que faz você morar naquela casa específica, usar aquelas roupas, ir trabalhar, constituir família, curtir um “entretenimento cultural” e assim por diante? A vergonha. Senão, o que as pessoas vão dizer?
Há uma vergonha que impede meu avanço: “O que os outros vão pensar?”
E há outro tipo, a vergonha diante do Criador.
Se eu reforçá-la, o constrangimento diante dos outros fica em segundo plano: “Deixe-os falar, deixe-os pensar o que quiserem”.
Estou pronto para sentir um constrangimento infantil diante dos outros, se isso me ajudar a sentir verdadeira vergonha diante do Criador e a mirar na direção certa.
A vergonha é o ponto do meu eu, seu indicador.
Em relacionamentos com os outros, meu ego pode ser ferido. Mas em relação ao Criador, trata-se da profunda e primordial oposição de atributos.
A vergonha é criada separadamente. Ela não existe nos níveis inanimado, vegetativo ou animado. Pertence exclusivamente à espécie humana e se diferencia dentro dela de acordo com os níveis de desejo.
A vergonha é a razão da primeira restrição, a causa de todo o desenvolvimento. No mundo do infinito, Malchut estava repleta de luz e em união com o Criador. Mas faltava-lhe apenas uma coisa: livrar-se da oposição a Ele.
Esse é o ponto da vergonha.
Você pensaria: que diferença faz? Diante de você está uma mesa repleta de iguarias reais, e o Anfitrião lhe dá todo o Seu palácio, todos os Seus tesouros: “Tudo o que Eu tenho é seu. O que mais você precisa? Não quer ser hóspede na Minha casa? Ótimo, Eu não sou mais o anfitrião.”
No entanto, o hóspede permanece insatisfeito: “Não fui eu quem preparou tudo isso, foi Você. Eu já tinha tudo pronto”.
“Então você quer se tornar como Eu — existência a partir da própria existência?”
Aqui tocamos num ponto muito sutil, tão elevado que não está claro para onde conduz, para açgum lugar além do décimo milênio, após a correção final.
Da Lição Diária de Cabalá de 31/10/11, Escritos do Baal HaSulam, “O Amor de Deus e o Amor do Homem”
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