A humanidade enfrenta questões sérias sobre o sentido da vida e a essência da governança da realidade: Quem somos nós, em que tipo de mundo vivemos, o que nos está reservado e podemos influenciar o nosso destino?
Aqueles que fazem essas perguntas se dividem em duas categorias: aqueles que as fazem por causa do sofrimento e de vários problemas, porque desejam escapar deles, e isso lhes basta; e aqueles em quem a questão do sentido da vida permanece e os atormenta mesmo depois que o sofrimento diminui.
Essa questão é chamada de “ponto no coração” do plano animado, do qual se origina o que mais tarde chamamos de “humano”. O anseio por alcançar o sentido da existência começa a se manifestar nas pessoas quando elas se dedicam ao estudo da sabedoria da Cabalá.
Mas aqueles que questionam o sentido da vida apenas para satisfazer suas necessidades terrenas, acabam por partir. E aqueles cujo propósito central no coração é uma fome de informação que exige compreender, sentir, penetrar neste sistema de governo, saber por que, com que propósito e como toda a realidade existe, permanecem, porque esse propósito emana do mundo superior, de um plano mais elevado. Não podem mais abandoná-lo e simplesmente continuar a existir neste mundo; nenhum prazer mundano pode suprimi-lo.
As pessoas percebem que o estudo da Cabalá eleva a pessoa a um nível superior e exige seu envolvimento pessoal na governança da criação. Não se trata de milagres que permitam moldar o mundo ou governar a sociedade, mas de como governar a si mesmo, de alcançar um estado em que corresponda a todas as categorias e condições do mundo superior.
O sistema de governança, o mundo superior, é construído sobre a qualidade de doação e amor. Estas não são apenas palavras, pois o sistema de toda a natureza, de toda a criação, é um só e completamente fechado; existe em absoluta interconexão integral de tudo com tudo. Cada partícula está estritamente ligada a todas as outras, tanto a menor quanto a maior. A estrutura deste sistema é surpreendente.
Em nosso mundo, não podemos construir tais sistemas. Mesmo na biologia, os organismos vivos se assemelham a ele em alguns aspectos, mas, no geral, estão muito longe da perfeição revelada no sistema governante do mundo superior em seu grau mais elevado.
Portanto, com nossas qualidades chamadas coração e mente, devemos ascender a esse grau; isto é, devemos nos transformar e absorver as qualidades integrais do grau superior: as qualidades da unidade universal que se constroem precisamente acima do nosso egoísmo, acima daquilo que nos separa, repele e nos opõe uns aos outros. Antes de tudo, devemos estudar nossa natureza egoísta, porque não a compreendemos de forma alguma.
Isso nos é revelado apenas ligeiramente, no pequeno nível terreno, enquanto diante de nós está a revelação do que é chamado de “49 portas impuras”, 49 graus de egoísmo.
Em outras palavras, agora revelamos apenas a camada mais frágil e superficial do egoísmo em que existimos. O resto, as qualidades egoístas mais profundas e pesadas, jazem abaixo e serão gradualmente reveladas ao longo do estudo, mas apenas na medida em que avançarmos em direção à unidade integral.
Se tentarmos nos assemelhar ao grau superior, veremos o quanto somos diferentes dele. Então, buscaremos transcender essa discrepância, ultrapassar a camada de egoísmo recém-revelada, em direção à semelhança com o grau superior, rumo à conexão mútua, à unidade e à ajuda mútua. Isso é feito em grupo, para que a conexão possa ser vivenciada na prática e não apenas declarada verbalmente.
Ao utilizarmos o método de conexão dentro de um grupo, começamos a sentir como é impossível concretizá-la não apenas na sociedade em geral, ou dentro de uma nação, ou ainda mais no mundo, mas até mesmo dentro de um grupo. Percebo cada vez mais quantas avaliações faço em relação aos meus amigos, como eles me irritam, como vejo várias falhas neles e como tento manter distância.
Quanto mais nos aproximamos uns dos outros, mais revelamos nossa verdadeira natureza, e a cada vez nos sentimos como seres pequenos e imperfeitos, incapazes de nos elevarmos acima de nós mesmos e nos aproximarmos ainda mais.
Mesmo para uma recompensa como revelar o sistema de governança superior, o mundo superior, compreender tudo o que nos acontece e sentir a realidade além das limitações terrenas, além do tempo, do espaço e do movimento, ainda assim não podemos fazer nada. Por mais que nos convençamos, sentimos como nosso egoísmo age de forma suja e nos arrasta constantemente para cálculos mesquinhos.
No entanto, estar em grupo nos proporciona algo que uma pessoa sozinha não tem: ajuda mútua, que devemos oferecer uns aos outros. Somos obrigados a fazer isso mesmo contra a nossa vontade.
Estando em um estado chamado “este mundo”, somos capazes de realizar ações absolutamente opostas ao nosso desejo interior. Uma pessoa pode ser desagradável comigo, mas eu sorrio para ela. Posso não ter sentimentos por um amigo, mas, ainda assim, me esforço para me aproximar, para realizar, se não uma ação emocional interior, pelo menos alguma ação mecânica compartilhada, e assim por diante.
Ou seja, nosso mundo é maravilhoso porque nele podemos realizar ações mecânicas sem sentimentos ou intenções, e essas ações influenciarão o sistema superior. Essa é a nossa salvação!
Portanto, nosso mundo está separado do sistema dos mundos superiores e nos permite governar o mundo superior por meio de ações físicas. Posso servir a alguém e, assim, obter méritos espirituais, mesmo que não tenha nenhum sentimento interior particular por essa pessoa, por um amigo, por exemplo.
Mas eu quero alcançar essa sensação, e por isso realizo vários gestos de atenção, trabalho em grupo, preparo refeições, participo de diferentes atividades sem fazer nenhum esforço interno.
Posso não ter força ou desejo para o trabalho interior, mas posso me forçar a realizar ações físicas, mesmo que isso também seja difícil, e dessa forma, eu avanço.
O grupo é a única ferramenta em nosso mundo que permite que alguém, trabalhando dentro dele, execute ações puramente mecânicas que são consideradas espirituais. Portanto, nossa ascensão começa com a participação no trabalho do grupo.
Os Cabalistas que alcançaram o sistema superior descobriram que ele é estruturado em dezenas que se subdividem em dezenas, e assim por diante até o infinito. Essas dezenas estão contidas umas nas outras. Assim, o sistema superior se decompõe em dez Sefirot fundamentais (Sefira, da palavra “Sapir” — radiante), dez fontes de radiância da luz superior, a emanação da bondade em suas diversas formas.
As dez primeiras Sefirot são chamadas de “os Nomes do Criador”, porque é assim que revelamos a força superior geral que permeia toda a criação em Sua primeira e mais elevada revelação para nós.
Não sentimos a força em si; só podemos detectá-la através das dez Sefirot, assim como detectamos eletricidade, um campo magnético ou qualquer força física apenas pelo seu efeito sobre algum objeto físico. Sem essa manifestação, não sabemos se ela existe ou não. Precisamos de um indicador que possa percebê-la.
Todas as Sefirot estão tão interligadas que não conseguimos imaginar essa imagem integral perfeitamente completa. Não conseguimos compreendê-la em nosso estado atual. Somente se mudarmos nossas qualidades internas seremos capazes de entrar na sensação da ideia integral, da influência integral, do fenômeno integral. Este é o sistema do grau superior: o mundo espiritual.
Da Convenção Mundial de Cabalá em Moscou, 02/05/16, Lição 1
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