Palestras Sobre Os Degraus Da Escada, Parte 195
Palestras sobre os Degraus da Escada, Parte 195
Capítulo 19. Temor e Alegria
Temor e alegria são opostos. Como podem estar conectados? Baal HaSulam escreve na Introdução ao Livro do Zohar que a primeira ação, a primeira correção, é chamada de “temor”. Existem mandamentos da Torá, que são mandamentos de luz, mandamentos de correção, e que formam o caminho que ascende deste mundo ao fim da correção. Este caminho é dividido em correções. A primeira correção que devemos alcançar é o temor.
O Zohar questiona: se o Criador é bom, perfeito, pratica o bem e existe acima de qualquer egoísmo, por que alguém deveria temê-Lo? Neste mundo, o temor geralmente é obtido pela força. De fato, parece inadequado que o Criador, que é absolutamente perfeito, exija temor.
O Zohar explica que existe um tipo de temor chamado “temor deste mundo”, onde tememos a punição que pode recair sobre nós ou nossa família neste mundo. Há também o temor da punição no outro mundo, um nível superior de punição (e temor), mas que ainda é punição. Mais tarde, quando corrigimos nossos vasos para vasos de doação e adquirimos uma tela (Masach), deixamos completamente de temer o Criador, pois vemos que tudo é bom e faz o bem. O Criador se revela e compreendemos que nosso temor anterior de punição não provinha da capacidade do Criador de punir, mas sim de nossos próprios corpos não corrigidos.
Na verdade, o castigo divino é inexistente. O único castigo é a desconexão com o Criador. Então, chegamos a um tipo diferente de temor, relacionado à doação: o temor de não ser capaz de doar. Esse temor em si é uma correção. Ele nos permite construir vasos de doação a partir de nossa alma. Então, dentro da revelação desse temor, recebemos a plenitude chamada “amor”. O amor é resultado do temor. Quanto maior o nosso temor de sermos incapazes de doar, mais a luz superior nos preenche e traz a sensação de amor, equivalência de forma, conexão e adesão (Dvekut) com o Criador.
Portanto, o temor é uma correção. Visto que somos inicialmente feitos de um desejo de receber e esse desejo deve ser direcionado para doar, caso contrário não podemos sentir prazer. A correção reside nos meios de doar, ou no que se chama de “temor do Criador”.
O que significa dizer que a correção deve ser o temor, vasos de doação? Se recebemos prazer no desejo de receber, o prazer imediatamente anula o desejo. Por exemplo, quando começamos a comer com fome, a comida é saborosa e agradável. Mas, à medida que continuamos a comer mais e mais, o prazer diminui, mesmo que a comida seja a mais deliciosa. Nem mesmo iguarias requintadas aumentarão o prazer sentido na primeira mordida. Isso ocorre porque o prazer que entra preenche o desejo de receber e anula a carência.
Portanto, é impossível estar completamente cheio e satisfeito, ou seja, desfrutar plenamente, e ainda sentir prazer. Quando o vaso atinge a saturação, ele deixa de sentir plenitude. Isso também pode ser observado quando ansiamos, sonhamos e buscamos algo por muito tempo, mas logo após conquistá-lo, perde o encanto e se torna banal. Isso não tem a ver com o tempo. Em vez disso, o prazer preencheu o vaso e a carência, isto é, a fome e o apetite, desapareceram.
Para que o prazer não seja acidental, temporário e passageiro, mas eterno, ele precisa crescer junto com a satisfação e não desaparecer. À medida que a satisfação aumenta, o prazer também deve aumentar, para que ambos se sustentem mutuamente. Como podemos alcançar isso? Transformando nossos corpos em corpos de doação. Ou seja, se adicionarmos a intenção de doar ao desejo de receber, o corpo atinge um status que transcende o tempo e o espaço. Então, mesmo quando a carência é preenchida, quando o “estômago” está cheio, se a intenção for doar, quanto mais nos preenchemos, mais doamos, e o desejo de doar continua a crescer.
“Acima do tempo” significa que, à medida que nos preenchemos cada vez mais, nossa carência, apetite e fome não diminuem, mas aumentam, porque podemos dar mais. Portanto, precisamos adicionar intenção ao desejo de receber. Essa intenção torna o desejo de receber eterno. Ele não desaparece diante da luz que o preenche, mas, ao contrário, torna-se eterno como a própria luz quando munida da intenção de doar.
Essa é a essência da sabedoria da Cabalá: saber receber. Se aprendermos a fazer isso corretamente, começaremos a receber prazeres incessantes e a ascender de nível em nível, de força em força. Adquirimos mais carências, corrigimos ainda mais com a intenção de doar, preenchemos mais essa carência e, novamente, aumentamos a carência, e assim por diante, progredindo até alcançarmos a plenitude ilimitada, que é chamada de “o fim da correção”.
O fim da correção não confere ao vaso uma capacidade fixa. Se o vaso tivesse uma capacidade fixa, deixaria de desfrutar, mesmo para poder doar. A doação fixa não pode existir. Pelo contrário, a doação deve crescer constantemente, caso contrário não é doação. Portanto, atingimos um estado chamado “Ein Sof” (“infinito”, ou literalmente, “sem fim”). Em Ein Sof, podemos expandir nossos vasos ilimitadamente, com intenções e realizações.
Chegamos ao verdadeiro temor, que é a questão de se podemos doar. Ou seja, à medida que mais carências se acumulam, podemos criar uma tela sobre elas para doar e, através dela, receber para doar novamente?
Essa é a essência do verdadeiro temor. Como resultado, recebemos a plenitude do alto, a luz da Torá. Quando a luz da Torá preenche esse temor, juntas criam uma sensação chamada “a alegria da Torá”, um sentimento de júbilo. Ao corrigirmos nossos vasos, recebemos a plenitude, a luz superior chamada “Torá”, e alcançamos a alegria.