Escravidão Egípcia Hoje?

944Pergunta: Na primeira noite da festa de Pessach, é costume realizar uma refeição especial na qual se lê a Hagada de Pessach, que narra a fuga dos judeus da escravidão egípcia. Essa história é uma simples narrativa histórica ou tem um significado mais profundo que se aplica aos dias de hoje?

Resposta: O exílio egípcio remonta à era dos antepassados, seguido pela era dos filhos. O patriarca Abraão começou a reunir discípulos de toda a Antiga Babilônia. Ele ensinou que é impossível avançar e se aproximar enquanto todos estiverem em tamanha luta interna e egoísmo, como aconteceu na Babilônia.

A construção da Torre de Babel simbolizou a forma máxima de egoísmo que havia se espalhado até os céus. Toda a Babilônia foi dilacerada pelo ódio mútuo e pela incompreensão, o que é chamado de “confusão de línguas”.

Abraão disse aos seus alunos que existe um método único para toda a humanidade, mas é impossível impô-lo às pessoas, pois exige maturidade da pessoa. A essência desse método é “o amor cobre todos os crimes”.

Cada um de nós está dentro do seu egoísmo, mas precisamos construir uma conexão entre nós sobre ele. Egoísmo é o ódio infundado ao próximo. Se vejo que o gramado do meu vizinho está mais verde ou que ele comprou um carro melhor que o meu, começo a odiá-lo.

Isso é ódio sem motivo. Se meu filho comprasse um carro bacana, eu só ficaria feliz. Quanto mais sucesso meus filhos têm, mais feliz eu sou, mas cada sucesso do meu vizinho estraga meu humor.

Isso acontecia em pequena escala no bairro, no quintal e na casa. Mas hoje, o mundo inteiro se transformou numa Babilônia: ricos e pobres estão todos discutindo, defendendo suas opiniões e discordando uns dos outros.

Não sabemos o que significa uma vida boa e tranquila quando não sentimos nenhuma pressão. É como viver no paraíso. Não há tempo nem espaço, e tudo corre tranquila e facilmente. Todos se ajudam, deixando-os seguir em frente. Se você precisa de algo, todos correm para ajudá-lo. Você pode ter certeza de que sempre será amparado no momento certo.

Não estamos acostumados a tal vida e não conseguimos imaginá-la. Abraão explicou aos babilônios que é impossível continuar vivendo em nosso crescente egoísmo e brigando uns com os outros. 99% de todas as nossas forças são gastas na sobrevivência nas condições dessa luta interna.

Mas e se o egoísmo for tão grande? Ele nos domina; obriga todos a lutar por sua opinião e a se considerarem os mais inteligentes. É impossível lutar contra a sua natureza, e não é necessário — você só precisa se elevar acima dela.

Cada um tem a sua opinião, como acontece entre parentes, mas todos somos unidos por uma família que todos temos que cuidar juntos. Precisamos tirar esse exemplo da vida. Digamos que meus filhos não compartilham minhas visões políticas: um tem visões mais conservadoras e de direita, o outro tem visões de esquerda, o terceiro se tornou religioso ortodoxo, etc., cada um vota no seu próprio partido.

Mas se somos uma família, apesar disso, amamos a todos e ajudamos a todos. É importante para nós que esta seja uma pessoa próxima, um membro da nossa família. É assim que devemos cuidar de todos — como se fossem uma só família.

Então, não daremos importância à diferença de opiniões. Se alguém quer viver diferente, deixe-o viver. Todos podem manter seu ego se se considerarem obrigados a amar os outros acima dele. Outros pensam diferente de mim, mas não os pressiono nem tento convencê-los à força. Todos são livres para permanecer como são, o que significa que todos os crimes serão cobertos pelo amor, assim como em uma boa família.

Eu me anulo diante dos outros e não lhes imponho minha opinião, mas, pelo contrário, estou pronto para compartilhar seus desejos e ajudá-los. E assim todos agem em relação aos outros, graças ao qual criamos um campo comum especial e acolhedor, que se chama o sentimento de família ou de um povo.

Estamos envoltos em uma nuvem de amor, participação mútua, unificação, calor humano, reciprocidade. É algo completamente novo. Não existia antes, é construído precisamente sobre este princípio de “o amor que cobre todos os pecados”.

Cada um permanece com seu egoísmo, mas sabemos como lidar com ele. Afinal, o egoísmo nos é dado pela natureza, e é óbvio para nós hoje que não podemos fazer nada a respeito. Mas de Abraão, recebemos uma técnica que nos permite superar esse egoísmo e nos unir.

Aqueles que sabem se conectar acima do egoísmo são chamados de judeus (Yehudim), da palavra “Yehud” (unidade), ou o povo de Israel, Yashar-El, ou seja, direto ao Criador. A nação de Israel foi criada com base nisso.

Após deixar a Babilônia, Israel, após pequenas lutas, encontra-se em um período chamado exílio egípcio, que é a escravidão ao seu egoísmo. O egoísmo nos domina e não nos permite conectar. Não importa o quanto tentemos, não importa o quanto trabalhemos, nada funciona.

Isso se chama escravidão, que é um trabalho exaustivo sobre a nossa matéria. Tentamos construir algo a partir disso entre nós, mas nada acontece até percebermos que precisamos superar o nosso ego. Isso acontece depois de muitos golpes e trabalho duro.

Como resultado, decidimos que é impossível continuar existindo assim. Esta é a situação em que nos encontramos hoje. Caso contrário, iremos apenas destruir uns aos outros em uma guerra interna.

Precisamos realmente compreender que nossa vida é escravidão. O poder do mal que vive em nós nos devora e destrói. Então, concordaremos em nos elevar acima do egoísmo, como já fizemos antes. Não sabemos como fazer isso, mas, pelo menos, estamos fugindo do ódio mútuo, queremos nos libertar do poder do Faraó.

Isso significa que estamos deixando o Egito, correndo na escuridão sem saber para onde. Apenas entendemos que não podemos mais existir nele. Então chegamos ao Monte Sinai, vendo que tipo de ódio (pecado) existe entre nós.

Concordamos em superar esse ódio e nos unir em uma só pessoa com um só coração, para alcançar a garantia mútua, para aceitar a Torá, isto é, o método de unificação. A regra principal da Torá é amar o próximo como a si mesmo. É então que nascemos como o povo de Israel, como diz: “Hoje vocês se tornaram Meu povo”.

De KabTV, “Nova Vida 537”, 25/03/15