Entre O Amor E O Ódio

534Pergunta: Você disse uma vez que toda a nossa vida se desenrola entre o amor e o ódio. Mas como esses dois sentimentos estão conectados?

Resposta: Se não houvesse ódio, também não haveria amor. Se eu não desejasse algo e me sentisse realizado por isso, como poderia sentir que o amo?

A medida, a qualidade e a profundidade do amor sempre dependem da medida, da qualidade e da profundidade do ódio.

Ódio é quando rejeito algo e quero afastá-lo de mim, ou sofro profundamente por não tê-lo. Dentro desse espectro está toda a gama dos nossos relacionamentos. Na verdade, tudo na vida se divide apenas entre o que odeio e o que amo.

Nós somos criados a partir do desejo de desfrutar. Portanto, há coisas que odeio e das quais quero me distanciar, pois afetam negativamente meu desejo de desfrutar, e há coisas que amo e das quais quero me aproximar, pois afetam positivamente meu desejo de prazer. Toda a minha vida se entrelaça entre esses dois polos: entre o que é bom para mim e o que é mau para mim, entre o ódio pelo que me faz mal e o amor pelo que me faz bem.

No entanto, talvez devêssemos nos reeducar para reconsiderar o que é bom e o que é mau, o que é digno de prazer e o que não é. Educação, nesse sentido, significa reformular nossa atitude em relação ao que parece atraente e agradável, e em relação ao que parece desagradável ou prejudicial.

Essa mudança nos permite ir além da simples questão do que amar ou odiar, e, em vez disso, perguntar: o que é verdadeiro e o que é falso? Afinal, algumas coisas que amo acabam sendo enganosas e prejudiciais, enquanto outras que rejeito instintivamente são verdadeiras e, em última análise, benéficas. Devo prestar atenção a elas, aproximar-me delas, e descobrir que elas genuinamente me conduzem à bondade.

Em outras palavras, não devo viver de acordo com meu senso instintivo ou culturalmente adquirido de bem e mal — o que amo e o que odeio —, mas acrescentar a ele uma investigação racional: o que é verdadeiramente bom e o que é verdadeiramente mau? Não da perspectiva do que me parece agradável ou desagradável, mas da perspectiva mais elevada do que vale a pena experimentar como bom ou mau. Assim, não definirei mais o bem e o mal pelos meus gostos pessoais ou pela atração ou repulsa natural, mas pelo bem absoluto e pelo mal absoluto — acima dos meus instintos.

Isso é possível porque o ser humano é uma criatura social. Podemos determinar o que é bom ou mau não apenas por nossas sensações pessoais, mas também pela influência do ambiente. Afinal, precisamos daqueles ao nosso redor: eles podem nos respeitar ou, ao contrário, nos envergonhar. Como estamos sujeitos à influência do ambiente, podemos mudar completamente nossos valores aprendendo a odiar o que antes amávamos.

Tomemos, por exemplo, uma pessoa que antes se comportava de forma descuidada, como bem entendia. Então, sob a influência do ambiente ao seu redor, ela de repente percebe que os outros não a respeitam, até mesmo a desprezam, por seu desleixo ou falta de educação.

Ela sente que não tem escolha a não ser mudar, corrigir-se, porque a influência da sociedade é poderosa e sentida intensamente, seja positiva ou negativa. Ela começa a ver sua negligência com os outros como prejudicial a si mesma e, por isso, se esforça para corrigir seu comportamento e atitude. Ao fazer isso, ela reformula seus valores.

É assim que podemos transformar o que amamos e o que odiamos.

De KabTV, “Nova Vida 692 – O Que é o Amor?”, 16/02/16