Ynet: “Hoje É Feriado: O Diário De Uma Viagem Espiritual”

Meu artigo recente no Ynet: “Hoje É Feriado: O Diário De Uma Viagem Espiritual”

Qual é a razão para todos os costumes que tão constantemente realizamos: comer o peixe tradicional que a mãe cozinha para Rosh Hashaná, o jejum no Yom Kippur, e as decorações suspensas em uma Sucá? Eu explico os feriados de Tishrei de acordo com a sabedoria da Cabalá, e revelo como podemos mudar nossas vidas para melhor com a sua ajuda.

Costuma-se pensar que os feriados marcam eventos históricos, a vitória na guerra, o nascimento ou morte de uma pessoa especial. De acordo com a sabedoria da Cabalá, os feriados de Israel são essencialmente diferentes dos feriados de outros povos, e descrevem estações no caminho para o desenvolvimento espiritual de cada pessoa.

Os feriados de Israel e seus costumes foram introduzidos pelos grandes Cabalistas milhares de anos atrás. Os Cabalistas são pessoas como nós, que através do estudo da sabedoria da Cabalá conseguiram alcançar uma vida de amor ao próximo e através disso o amar ao Criador: a força geral de amor que existe na realidade. Eles descobriram que existe um único objetivo para essa força superior: nos levar a ser conectados, felizes e cheios de amor como Ele enquanto ainda estamos vivos. Essa força recebeu vários nomes: Criador, Luz, Natureza, Amor e até mesmo Rei, como é costume chamá-la nos Dez Dias de Arrependimento: “Não temos rei, exceto você” (Ta’anit 25b).

Para descrever as estações que o Rei nos passa no caminho para o Seu reino mágico, para se familiarizar com Ele e descobrir todo o bem que Ele preparou para nós, os Cabalistas estabeleceram o calendário hebraico e o ciclo das festas e festivais nele. Assim, um momento antes de mergulhar a maçã no mel e pendurar decorações em uma Sucá, vamos parar e esclarecer de uma vez por todas por que nos incomodamos tanto a cada ano e como podemos extrair desse costumes algo melhor para todos nós.

A Primeira Estação: Rosh Hashaná

Rosh (cabeça) é considerada uma raiz … De acordo com a raiz e a Rosh que uma pessoa estabelece para si mesma em primeiro lugar, ela continua a sua vida” (Os Escritos do Rabash , “Carta 29”).

A primeira estação na jornada espiritual da pessoa é Rosh Hashaná – “O princípio da criação da pessoa” (Os Escritos do Rabash, “Dargot HaSulam” 882). Nesta fase, a pessoa é como um recém-nascido. Ela olha as coisas boas e ruins que passou na sua vida e se pergunta: O que é tudo isso? Por que estou viva ano após ano? Quem está gerindo esta realidade e qual é o propósito da existência?

Se tiver sorte, essas questões não a deixarão partir e vão levá-la à meta, à estação final e significativa da viagem: a descoberta da rede de conexão harmoniosa entre as pessoas dentro da qual ela vai sentir o poder positivo da conexão em toda a sua intensidade – a Força superior que gere a sua vida.

O primeiro Rosh Hashaná foi “comemorado” pela primeira vez 5777 anos atrás, quando um ser humano fez perguntas semelhantes. O nome dessa pessoa era Adão. Como uma criança que quer crescer e ser como seus pais, nós precisamos ser como a força que nos criou e quer ser descoberta. Todo esse desejo vai nos dar o poder para superar nossa natureza egoísta limitada, acima da preocupação particular por nós mesmos, e nos tornar “filhos de Adão”.

Os Cabalistas chamam o desejo de saber por que estamos vivos pelo nome de “ponto no coração”. O “coração” representa a totalidade dos desejos egoístas da pessoa que continuam a crescer, começando com os desejos mais básicos – por sexo, alimentação e família, até os desejos mais desenvolvidos – por dinheiro, respeito, e conhecimento. O ponto no coração é o desejo espiritual mais desenvolvido em uma pessoa na escada dos desejos. E quando é despertado, ele sopra em uma pessoa o espírito de vida e um novo desejo de autorealização. Este desejo não é satisfeito por dinheiro, respeito ou conhecimento, mas apenas pela realização do propósito da vida. E quando pela primeira vez a mudança é sentida dentro de uma pessoa, ela celebra Rosh Hashaná.

De Rosh Hashaná em diante, a pessoa aumenta o ritmo de sua jornada. Equipada com novos poderes, ela se esforça para chegar a um verdadeiro ponto de conexão com os outros e perceber o ponto que está ardendo em seu coração. Mas a esperança é uma coisa e a realidade é outra. Em vez de unidade, ela descobre uma grande separação, o mais terrível julgamento de todos. “O dia do julgamento foi criado em Tishrei, uma vez que estes são dias de desejo. E esse desejo desperta em nós naquela época a cada ano, e é necessário despertar para completar o arrependimento mais do que durante todo o ano. E a essência do arrependimento é se unir com todos com amor e com um só coração” (” Meor veShemesh “). Essa descoberta leva a pessoa à próxima estação na viagem, Yom Kippur.

A Segunda Estação: Yom Kippur

“Nós vemos a verdade através de Rosh Hashaná, depois a pessoa pode pedir a expiação. Portanto, Yom Kippur é depois de Rosh Hashaná “(Os Escritos do Rabash”, Dargot HaSulam”, 891).

No Livro do Zohar está escrito: “‘… na medida em que luz é mais excelente do que as trevas’ (Eclesiastes 2:13), pois o benefício da luz não vem senão da escuridão”. Não há luz sem escuridão, não há doce sem amargo, e não há bem sem mal. Para alcançar o bem, também temos que descobrir o mal. De acordo com a sabedoria da Cabalá, Yom Kippur é o reconhecimento de que a nossa natureza egoísta é má desde a sua juventude. Mas é precisamente este reconhecimento que nos possibilita atingir o bom. Se em Rosh Hashaná o desejo de se conectar com outras pessoas é despertado em nós, tudo bem é produzido através da conexão com elas. Assim, durante os Dez Dias de Arrependimento, somos gradualmente introduzidos na força egoísta negativa que nos impede de alcançar a unidade. Afinal de contas, em Yom Kippur não há lugar para se esconder a quebra e o ódio mútuo que nos dividem. Assim já é possível pedir a correção de nossa inclinação ao mal, o que é bom.

“Israel não tinha feriados como o 15º dia de Av e como o Yom Kippur” (Mishná Ta’anit 4: 8). Por quê? Porque esse era um dia especial de introspecção e profundo exame de consciência. Um dia de remorso em que era costume pedir perdão “Pelo pecado que fizemos em sua presença através da inclinação ao mal” (oração de Yom Kippur).

A sabedoria da Cabalá explica que “perdão” não é apenas um pedido verbal, “Nós temos sido culpados, traídos, roubados ….”; ao contrário, é uma fase em que a pessoa se torna consciente do seu verdadeiro estado – quão longe está da conexão correta com os outros, e, como resultado disso, de conexão com a força do bem que controla sua vida. Essa difícil revelação realmente deixa a pessoa feliz, porque, como resultado, um grito irrompe dela pela mudança interior. Este pedido particular de perdão é esperado de nós, e quando chega, é atendido.

A Terceira e Quarto Estações: Sucot e Simchat Torah

“… A festa de Sucot explica todas as perguntas, mesmo as mais difíceis e piores ….” (Os Escritos do Rabash , “Carta 36”).

Na terceira estação na jornada espiritual, chamada “Sucot“, a resposta ao pedido interno chega e nós temos uma força positiva especial que transforma o mal em nós em bem. Está escrito no Talmude: “Deixe a sua morada permanente e habite em uma morada temporária” (Sukkah 2a). A mudança pela qual devemos passar é deixar a morada permanente, ou seja, o narcisismo, para uma nova morada, ao altruísmo. Então, a nossa imagem da realidade é alterada. Nossos sentidos são aparentemente invertidos. O cérebro e o coração mudam de direção: do narcisismo para o altruísmo, e a imagem de toda a realidade se revela diante dos nossos olhos. A pessoa começa a obter uma resposta ao pedido em seu coração, e todos os seus desejos que se opunham à conexão entram na “Sucá“.

Sucá simboliza a forma completa que cada pessoa vai alcançar no futuro. As leis da sua construção simbolizam a maneira pela qual a pessoa se eleva acima do seu ego e adquire a capacidade de amar e doar. Assim, por exemplo, o Shach (palha) em uma Sucá deixa mais sombra do que luz, como está escrito: “A sua sombra é mais do que seu sol” (Mishná Sucá 2:2). Esse costume simboliza uma ação na qual a pessoa “esconde”, restringe, o uso de seu ego para que possa sair dele em direção à Luz, para a conexão e o amor.

Então, ela está pronta para Simchat Torah: ela desenvolve a capacidade de ler os textos de Cabalá e atrair para si a Luz Superior, que também é chamada de Torá, para elevar a conexão entre nós até o ápice da escada de valores, e mudar a sua vida para melhor. Isto é porque a Torá é a força que está preparada para corrigir o ódio e a separação entre nós e transformá-los em conexão e amor, que é uma descoberta chamado de “Simchah” (felicidade). Então, a pessoa sente dentro de si toda a vasta extensão ao seu redor, e ganha uma vida eterna, plena e feliz.

Eu espero, desejo e oro por um ano de mudança, um ano de construção de sistemas adequados de relações entre nós.

Um bom ano para todo o povo de Israel!

Ynet 29/09/16

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