Como Um Feixe De Juncos — Viver Num Mundo Integrado, Parte 6

Like a Bundle of ReedsComo um Feixe de Juncos, Por que Unidade e Garantia Mútua são Urgentes Hoje, Michael Laitman, Ph.D.

Capítulo 10: Viver Num Mundo Integrado

Um Mundo Integrado Exige Educação Integral

Crianças Educadas Integralmente

Enquanto adultos devem assumir responsabilidade por mudar positivamente seus meios sociais, a situação é muito mais complicada no que diz respeito a crianças e jovens. Aqui é responsabilidade dos adultos, professores e educadores, seja através de iniciativas privadas ou com o apoio do governo, construir este meio que induz à coesão.

O atual sistema de educação promove uma competição sem trégua. Por si mesma, a competição é natural e não é naturalmente negativa. Mas se considerarmos a cultura competitiva de hoje e o que ela está fazendo conosco, e ainda mais com os nossos filhos, é claro que estamos empregando mal esse traço.

Em Sem Concurso: O Caso Contra a Competição, Alfie Kohn, um conhecido dissidente da competição, citou o psicólogo, Elliot Aronson: “Desde o jogador de futebol da escolinha de futebol que irrompe em lágrimas depois de sua equipe perder, aos estudantes de segundo grau no estádio de futebol cantando ‘Somos o número um!’; desde Lyndon Johnson, cujo juízo foi quase certamente distorcido pelo seu desejo frequentemente afirmado de não ser o primeiro Presidente Americano a perder uma guerra, a um aluno da terceira classe que despreza seu colega de turma por uma performance superior num teste de aritmética, nós manifestamos uma vacilante obsessão cultural pela vitória”. [i]

Certamente, bibliotecas e a Internet são abundantes em estudos que indicam que a competição e o individualismo são maus e que a colaboração e a cooperação são boas, tanto no trabalho como na escola. Jeffrey Norris publicou uma história no Centro Noticioso da UCSF, intitulada, “O Prémio Nobel de Yamanaka Salienta o Valor do Treinamento e Colaboração”. Nessa história, argumentou Norris, “O solitário cientista trabalhando até tarde à noite para completar uma experiência inovadora que conduz a um momento Eureka de alegria solitária é uma cena comum dos filmes de Hollywood, mas na ciência da realidade é um envolvimento altamente social”. [ii] Mais tarde, na seção, “Colaboração Sinérgica Impulsiona o Progresso”, ele acrescenta, “Nos moldes abertos dos modernos edifícios de laboratório, cada investigador cientifico principal trabalha com vários colegas pós-doutorados, estudantes graduados e técnicos, e um visitante não sabe dizer onde termina um laboratório e começa o outro. Ideias científicas e camaradagem são nutridas no meio interativo”. [iii]

E como na escola. Numerosas experiências foram já conduzidas sobre os benefícios da colaboração no sistema de educação. Num ensaio chamado, “Uma História de Sucesso da Psicologia Educativa: Teoria da Interdependência Social e Aprendizagem Cooperativa”, os professores da Universidade do Minnesota, David W. Johnson e Roger T. Johnson apresentam o caso para a teoria da “interdependência social”. Em suas palavras, “Mais de 1200 estudos de investigação foram conduzidos nas últimas onze décadas sobre esforços cooperativos, competitivos e individualistas. Os achados destes estudos validaram, modificaram, refinaram e prolongaram a teoria”. [iv]

Os autores avançaram para detalhar o que estes estudos haviam descoberto. Os pesquisadores compararam a eficácia da aprendizagem cooperativa à frequentemente usada aprendizagem individual e competitiva. Os resultados foram inequívocos. Em termos de responsabilidade individual e responsabilidade pessoal, eles concluíram, “A interdependência positiva que une membros de grupo está postulada para resultar em sentimentos de responsabilidade por (a) completar nossa quota do trabalho e (b) facilitar o trabalho de outros membros do grupo. Além do mais, quando a performance de uma pessoa afeta o resultado dos colaboradores, a pessoa sente-se responsável pelo bem-estar dos colaboradores, bem como o seu próprio bem-estar. Falhar por si só é ruim, mas falhar para com os outros é pior”. [v] Em outras palavras, a interdependência positiva torna pessoas individualistas em preocupadas e colaboradoras, o completo oposto da presente tendência de crescente individualismo até ao ponto do narcisismo. [vi]

Johnson e Johnson distinguem entre interdependência positiva e interdependência negativa. A positiva envolve “… uma correlação positiva entre as metas e realizações dos indivíduos; os indivíduos percebem que podem alcançar suas metas se e somente se os outros indivíduos com os quais estão cooperativamente ligados alcançam suas metas” . [vii] A negativa significa que “indivíduos percebem que podem obter suas metas se, e somente se, os outros indivíduos com os quais estão competitivamente ligados falharem em obter suas metas”. [viii]

Para demonstrar os benefícios da colaboração, os investigadores mediram as concretizações de estudantes que colaboraram em comparação com aqueles que competiram. Em seus achados, “Descobriu-se que a pessoa mediana cooperativa concretiza cerca de dois terços de um desvio padrão acima da pessoa mediana atuando dentro de uma situação competitiva ou individualista”. [ix]

Para compreender o sentido de tal desvio acima da média, considere que se uma criança é um estudante de média 2, ao cooperar, as notas desse estudante vão saltar para uma média impressionante de 4\5. Os Johnsons também escreveram, “Cooperação, quando comparada com esforços competitivos e individualistas, tem tendência de promover maior retenção a longo-prazo, elevada motivação intrínseca e expectativas de sucesso, mais pensamento criativo… e mais atitudes positivas para a tarefa e a escola”. [x] Em outras palavras, não só as crianças se beneficiam desta atitude pró-social, mas a sociedade como um todo ganha impulso.

No princípio de 2012, eu escrevi em conjunto com o Professor de Psicologia e terapeuta Gestalt, Dr. Anatoly Ulianov, um livro intitulado, A Psicologia da Sociedade Integral. O livro detalha os fundamentos da Educação Integral (EI), com referências específicas à sociedade competitiva de hoje. Em essência, o livro sugere que uma vez que a competição é inerente à natureza humana, como detalhado anteriormente neste livro com respeito à aspiração falante por riqueza, poder e fama, não a devemos inibir. Em vez disso, ao invés de competir para ser rei (ou rainha) do meu bairro, por assim dizer, podemos nutrir uma atmosfera social que promova a competição para a pessoa que contribui mais com as outras.

Especificamente, aqueles que deviam ser declarados vencedores são indivíduos que fizeram mais para tornarem os outros melhores. Num sentido, é uma competição para ser aquele que ama mais os outros. Assim, o impulso natural das crianças de se sobressair, e especificamente, se sobressair às outras, não é inibido, permitindo que elas atualizem seu completo potencial ao canalizá-lo para beneficiar a sociedade, em vez delas mesmas, uma vez que a única maneira de vencer este tipo de competição é serem as melhores ao serem boas. Desta maneira, a competição torna-se uma ferramenta para alcançar a qualidade de doação nas crianças.

Para criar este tipo de atmosfera saudável, relações colega-a-colega e relações estudante-a-estudante devem refletir estes valores pró-sociais. Isto envolve algumas modificações no estilo tradicional de ensino. A premissa na EI é que o desafio principal de hoje na educação não é a transmissão de informação, mas em vez disso inculcar capacidades com as quais se adquire informação rapidamente e de uma maneira que sirva melhor as várias metas dos estudantes.

Esta é uma mudança do paradigma tradicional, que resulta do fato de que a vida hoje é muito diferente do tempo da Revolução Industrial, durante a qual foi concebido o conceito do lecionar a informação de frente. Na Era da Informação, os dados se acumulam tão rápido que as experiências passadas só podem servir como uma base para uma posterior aprendizagem. Em preparação para o mundo adulto de hoje, as crianças escolares precisam aprender como aprender mais do que precisam para absorver informação.

Adicionalmente, devido à natureza interconectada e interdependente do mundo de hoje, desde cedo as crianças precisam compreender que o interesse pessoal sozinho não conduzirá à felicidade. Em vez disso, como Johnson e Johnson demonstram, a consideração mútua e a abertura aos outros promoverão melhor suas chances de sucesso e felicidade.

Mas as crianças precisam experimentar sua interconexão do mundo na vida real, e não escutar somente ou falar sobre isso. Uma maneira prática de alcançar isto é ao transformar a sala de aula num microcosmo, um pequeno meio ambiente, uma pequena família onde todos se preocupam uns com os outros.

Para esse fim, a EI propõe que estudantes e professores, ou “educadores,” como eles são referidos na EI, se sentem em círculos, e a aprendizagem tomará lugar através de discussões animadas, sobre o assunto estudado. Os círculos colocam o educador e estudantes no mesmo nível, para que o educador possa gentilmente guiar a discussão para a aprendizagem, e ainda mais importante, para o entendimento mútuo sem ser arrogante ou dominador.

Outro assunto importante é o currículo escolar. Isto deve refletir a natureza interligada do mundo. O currículo também deve apoiar a integração dos tópicos. Assim, o campo de estudo tal como a matemática, física e biologia não serão leccionados separadamente, mas dentro do contexto da Natureza como um todo, que é como as leis das três disciplinas na realidade funcionam.

A integração deve ser inerente ao próprio estudo, e é muito provável ver estudantes aplicarem das leis da biologia aos seus estudos nas humanidades. Afinal, a humanidade foi rotulada como “um superorganismo,” então aplicar as leis da biologia à sociedade humana parece uma evolução natural.

Também notável é o ponto de que na EI, os educadores não são professores, mas estudantes mais velhos. Isto aumenta a coesão geral e camaradagem entre estudantes de diferentes grupos etários, a desenvolver aptidões verbais e pedagógicas dos jovens educadores e induz uma muito mais profunda assimilação de informação nos tutores porque eles a têm que ensinar.

Mas, acima de tudo, quando os jovens tutores ensinam em vez de professores adultos, os problemas de disciplina se tornam virtualmente obsoletos. Porque crianças mais novas naturalmente aspiram a crianças que são mais velhas que elas em dois ou três anos, em vez de ressentir os educadores, como frequentemente sentem com os professores adultos, elas procuram favorecê-los e concorrem para ser o melhor estudante aos olhos do tutor. Casar essa aspiração com o desejo de ser o melhor ao ser bom, e você tem em suas mãos uma atmosfera escolar para as qual as crianças terão prazer de ir de manhã, e na qual elas crescerão para se tornarem adultos confiantes e pró-sociais.

Condizendo aos propósitos da EI, a própria aprendizagem tomará lugar em grupos, pois ela é a forma mais vantajosa de estudo para nutrir aptidões sociais e para inculcar informação, de acordo com os mencionados estudos da Johnson e Johnson. Assim, a avaliação de um estudante não se relacionará à sua habilidade de memorizar e recitar num teste padronizado. Em vez disso, avaliações serão dadas aos grupos, em vez de indivíduos. Isto aumentará ainda mais a sensação de responsabilidade do grupo e responsabilidade mútua entre os estudantes.

Com isso dito, professores e educadores regularmente enviarão relatórios aos pais e administradores escolares a respeito do progresso social e educativo das crianças. Porque os professores estarão muito mais próximos dos estudantes do que os métodos de ensino de hoje permitem, eles verão que um problema surge com uma criança antes que ele se deteriore numa grande crise.

Uma vez por semana, os estudantes devem abandonar o edifício escolar e saírem em excursões. Para conhecerem o mundo em que vivem, o sistema educativo deve fornecer-lhes em primeira mão o conhecimento das instituições que afetam suas vidas, as autoridades governamentais, a história e natureza dos lugares em que elas vivem. Tais excursões devem incluir museus, passeios em parques próximos, visitas às comunidades agrárias, visitas a fábricas, hospitais e excursões a instituições governamentais, estações de polícia e assim por diante.

Cada uma destas excursões irá necessitar de preparação que equipará os estudantes com conhecimento prévio do lugar que estão prestes a visitar, o papel desse lugar na sociedade, do que ele contribui, possíveis alternativas e as origens desse lugar ou instituição.

Por exemplo, antes de uma excursão à esquadra de polícia local, os estudantes pesquisarão o tópico da polícia na Internet, se possível com informação específica sobre a esquadra que estão prestes a visitar. Eles aprenderão como a polícia chegou ao seu presente modo de ação, como ela se encaixa dentro do tecido da vida na nossa sociedade e que alternativas para a polícia podemos imaginar.

Desta maneira, as crianças aprenderão sobre o mundo em que vivem, desenvolverão pensamento criativo para imaginar um futuro mais desejável, praticarão trabalho de equipe, e melhorarão suas aptidões de aprendizagem. Depois da excursão, maiores discussões permitirão aos estudantes partilhar o que aprenderam, tirar conclusões, fazer sugestões e comparar o que descobriram com as noções que tinham a respeito do tópico em discussão antes da excursão.

Há muito mais a dizer sobre as escolas de EI, tal como em respeito das relações de pais-escola-estudante, abordagem aos trabalhos-de-casa, horas escolares recomendadas, feriados, políticas de punição ou não, etc. Desenvolver mais este tópico está além da amplitude deste livro, mas a ideia ao redor da EI deve ficar clara: as crianças precisam aprender em meio ambiente interligado e experimentar em primeira mão os benefícios e diversão associados a viver em tal meio ambiente.

[i] Elliot Aronson, O Animal Social, pp 153-54, citado em: Alfie Kohn, Sem Concurso: O Caso Contra a Competição (NY: Houghton Mifflin Company, 1986), 2.

[ii] Jeffrey Norris, “Destaques do Prêmio Nobel Prize de Yamanaka, Valor do Treinamento e Colaboração” UCSF News Section (11 de outubro de 2012), url: http://www.ucsf.edu/news/2012/10/12949/yamanakas-nobel-prize-highlights-value-training-and-collaboration

[iii] ibid.

[iv] David W. Johnson e Roger T. Johnson, “Uma História de Sucesso da Psicologia da Educação: Teoria da Interdependência Social e Aprendizagem Cooperativa”, Pesquisador Educacional 38 (2009): 365, doi: 10,3102 / 0013189X09339057

[v] Johnson e Johnson, “Psicologia da Educação História de Sucesso”, 368

[vi] Livros sobre narcisismo abundam na sociedade americana. Bons exemplos são: Jean M. Twenge e W. Keith Campbell, A Epidemia do Narcisismo: Vivendo na Era da Titularidade (New York: Free Press, uma divisão da Simon & Schuster, Inc. 2009), e Christopher Lasch, A Cultura do Narcisismo: A Vida Americana numa Era de Expectativas Decrescentes (EUA: Norton & Company, em 17 de maio de 1991)

[vii] ibid.

[viii] ibid.

[ix] Johnson e Johnson, “Psicologia da Educação História de Sucesso”, 371

[x] ibid.

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